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Adamantina, quarta-feira, 22 de outubro de 2014

 

Padre Wilson faz balanço dos seis primeiros meses à frente da Matriz de Santo Antônio

Padre fala de temas polêmicos, como mudanças dentro da paróquia, preconceito, rejeição, entre outros

http://www.ginoticias.com.br/noticias/cidades/adamantina/padre-wilson-faz-balanco-dos-seis-primeiros-meses-a-frente-da-matriz-de-santo-antonio/ Padre Wilson faz balanço dos seis primeiros meses à frente da Matriz de Santo Antônio
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Padre Wilson faz balanço dos seis primeiros meses à frente da Matriz de Santo Antônio
 

Há seis meses a frente da igreja Santo Antônio de Adamantina, o padre Wilson Luís Ramos fala de temas polêmicos, como mudanças dentro da paróquia, preconceito, rejeição, trabalhos com os jovens, resistência por parte de alguns idosos e o legado deixado pelo papa Francisco em recente visita ao Brasil. Acompanhe entrevista exclusiva concedida ao IMPACTO e os projetos do novo padre. 

- Sobre o papa no Brasil, como  avalia essa visita e o que acredita que os católicos mais aprenderam com Francisco?

O papa Francisco lembrou muito João Paulo II em seu jeito de ser e proximidade com as pessoas. Francisco é latino-americano e tem as características do nosso povo, jeito nosso de abraçar, beijar, tocar e estar perto, e o que tivemos até o momento foram papas europeus, que são de diferentes estilos. Isso não quer dizer que o papa Francisco esteja fazendo uma disputa com a saída do Bento, essas são características dele.

Acredito que a presença do papa deixou marcas muito profundas de mudanças, reflexão e, sobretudo, de possibilidades, pois o pensamento que se tinha era de um mundo que não se tinha mais volta ou jeito, e ele mostrou que dentro de cada um há essa capacidade de mudança e isso é um anseio de todas as religiões, pois as palavras dele não foram referidas somente aos católicos.

- Qual deve ser o papel do jovem depois da Jornada Mundial da Juventude?

O papa deixou claro o desejo dele de que os jovens não tenham medo de assumir o papel deles na sociedade. Toda essas manifestações que temos vistos, que foram até elogiadas pelo religioso, são os jovens assumindo sua postura e acredito que a juventude tem que mostrar ‘a sua cara’, cooperar com a sociedade, tirar esse pensamento de que jovem não tem nada para oferecer.

Nós, religiosos, temos que colaborar com isso, pois eles não poderão ser melhores se não cuidarmos e tratarmos eles com mais amor hoje, como disso o papa João Paulo II, “jovem não é o futuro da igreja, ele é o presente”.

- Qual a maior transformação na igreja depois do novo papa ser eleito?

Muitas coisas vão mudar. Vimos que ele é um homem simples e acho que quando parte da liderança, o líder se tornar uma referência e exemplo, fará com que a igreja repense muitas coisas. Acredito que é necessário esse processo, infelizmente há muitos padres e religiosos que estão influenciados por esse ‘mundo do dinheiro’, beleza e vaidade, e temos que repensar. Nós somos consagrados e o mundo espera de nós uma resposta diferente. E vimos que papa não apenas falou, mas mostrou com seu exemplo de que é possível haver mudanças.

- A Folha de São Paulo da semana passada trouxe que o papa chega ao Brasil em um momento em que o catolicismo luta para reagir ao declínio acentuado que sofre. O senhor acredita que Adamantina sofre com essa realidade? Têm diminuído o número de fiéis na missa? Por que isso tem acontecido?

Acredito que o que em Adamantina o que houve nem foi a queda do catolicismo, mas sim a mudança de padre. As pessoas estavam acostumadas com um padre Nelson e nesses 14 anos que ele esteve frente aos trabalhos em Adamantina, muitos se apegaram ao seu jeito de ser. Entretanto, muitas pessoas na cidade ainda não associaram a necessidade dessa mudança. Mas em relação ao número de fiéis, como eu não sei de um número grande de participação daqui, eu não senti que os fiés tenham se afastado, pois acabei de chegar. Mas acredito que deva haver sim aqueles que se afastaram, que não concordam, mas esses são os que ainda não entenderam o propósito da igreja e da missão, pois um padre não pode passar a vida toda aqui, tem que haver mudanças. Cada pessoa tem suas características e jeito próprio de ser e vemos isso até com os papas Bento e Francisco. As mudanças são importantes.

- Qual a característica mais marcante do padre Wilson?

Espiritualidade. O padre Nelsom era mais da social e trabalho, eu sou mais oração e atendimento. Acredito que as pessoas precisam ser ouvidas, atendidas e dentro do sacramento da confissão e na orientação você pode conquistar grandes mudanças nas vidas das pessoas. A missa é um momento importante, mas acredito que esse contato, atenção, visitas e estar mais perto dos fiéis de forma geral, também são sagrados.

- Qual a principal diferença entre a igreja de Adamantina e de Pompéia, onde o senhor atuava?

As pessoas são totalmente diferentes. Eu não me senti bem acolhido por todos em Adamantina, no inicio foi um pouco difícil, mas fui aprendendo e me adaptando. Houve muita resistência, que acredito que seja pelo tempo que o outro padre ficou na cidade. Mas, me falaram também que em Adamantina é assim, quando as pessoas chegam eles não acolhem bem e depois de um certo tempo vão se aproximando,  então eu espero que essa visão possa mudar.

- O senhor trabalha mais com os jovens? Como é esse trabalho e como está sendo essa receptividade?

Eu trabalho com todos, mas acredito que os jovens se identifiquem mais comigo, assim como as crianças. Na missa das crianças procuro celebrar de tal forma que  as envolva, pergunte e esteja perto, então elas podem ter essa percepção de que o ‘padre dá mais atenção as crianças’, mas não é isso, talvez elas que se encantem um pouco mais pela atenção que lhes é dada, mas eu trabalho com toda a família.

Eu procuro dar o máximo de atenção para os jovens pois geralmente fazemos muitas críticas a eles, mas damos poucas oportunidades. Por exemplo, queremos que eles tenham responsabilidade, mas não confiamos que façam as coisas e vemos isso até mesmo no mercado de trabalho, todo mundo fala que o jovem não trabalha, mas quando eles vão pedir emprego querem que tenham experiência. E como isso vai acontecer se nunca trabalharam?

Minha proximidade com os jovens se dá nisso, pois procuro mostrar ao máximo aos jovens que eles têm o potencial e não podem desistir e nem desacreditar de si. Vejo que eles padecem muito pelas incompreensões, principalmente os adolescentes. Esses não precisam de crítica, pois já vivem em um momento crítico. O adolescente precisa de proximidade, afeto, compreensão, atenção e acho que é isso que nós identifica e aproxima.

Entretanto, isso não quer dizer que eu não os corrija, não diga a verdade, e não os ajude.

- Assim que assumiu a igreja em fevereiro, fez algumas mudanças. Quais foram elas? Como elas foram recebidas pelos fiéis?

Não fiz grandes mudanças, pelo contrário, temos que dar um tempo para que elas sejam realizadas, inclusive essa é a orientação da própria igreja.

Mas, por exemplo, uma das coisas que eu achei que não era favorável aqui na paróquia era a questão das leituras colocadas no ‘datashow’, em que as pessoas, muitas vezes, não sabem nem quem fez a leitura. Então eu fiz o propósito de abolir as leituras no ‘datashow’ e incentivar os católicos a levar sua bíblia à missa. Ainda temos muita gente reclamando e que não entende, mas essas pessoas precisam assimilar que a nossa fé está fundamentada na palavra e nós, católicos, temos que ter consciência plena de que é pela palavra que temos que viver. Como é que pode um católico se contentar apenas em ir à missa, ouvir a leitura ou ver o ‘datashow’ e não tocar nessa palavra? Isso é um absurdo total. Eu não estou muito preocupado com as críticas de algumas, principalmente dos mais velhos, que geralmente acham que não precisam aprender nada e já se bastam, e esse é o grande erro, justamente por isso que eles estão afastamento os jovens da igreja.

Percebe-se aqui mesmo em Adamantina, um grande número de pessoas de mais idade e poucos jovens nas missas, mas não é possível que a cidade não tenha jovens. E ao contrário de alguns idosos, eu estou preocupado com os jovens e essa é a razão pela qual propus a leitura da palavra, que no início vai ter resmungo, mas até o final nós vamos ver como vai ficar e acredito que eles ainda vão dar graças a Deus, pois em Pompéia, o pessoal teve essa resistência e hoje eles são os primeiros a agradecer e com eu já ouvi de famílias que agora leem a bíblia em casa. Temos que incentivar, pois se não começa na igreja a leitura da palavra,  não é em casa que vai começar.

Outro trabalho que tenho intenção de fazer é acampamento no bairro Pavão, que é um encontro dividido por fases, a partir de 11 anos, que tem o objetivo de evangelizar e estimular a vivência com desafios com Deus e aproximá-los a todos da igreja. Próximo deve acontecer no Carnaval, entre esse período deve-se organizar o local e preparar os jovens.

Outro assunto falado foi em relação a missas mais dinâmicas, em que as pessoas idosas são as que mais estão resistindo. Mas acredito que é necessário mais humildade, pois uma das coisas que os católicos mais reclamam é que a igreja é muito fria e que não acolhe os fiéis e, quando vão participar de cultos evangélicos, falam que lá sim o pastor sabe acolher. Quando fazemos isso no catolicismo, reclamam. Isso é uma questão de tempo, não estou forçando ninguém a cumprimentar nenhuma pessoa ou conversar com quem está ao seu lado. Só para citar um exemplo, quando chegamos à casa de alguém e sentamos do lado de quem não conhecemos, o mínimo que podemos fazer e cumprimentar quem está ao nosso lado. Mas infelizmente ainda não entenderam, mas vão entender.

Em relação à estrutura da igreja não houve mudança alguma.

- Surgiu, há algum tempo, um abaixo assinado, ou boatos de um abaixo assinado de pessoas que queriam retirá-lo de Adamantina. O que acredita que fez com que essas pessoas tomassem essa atitude?

Surgiu essa conversa do abaixo assinado, mas eu não vi esse papel, então acho que são só conversas. Acho que é natural que as pessoas façam isso, elas tinham carinho por outro padre e acham que ele tinha que passar a vida inteira aqui. Então é uma coisa natural e isso não me apavorou ou interferiu em nada. 

- Preconceito foi um dos temas citados por algumas. Acredita ter sofrido preconceito em Adamantina, até mesmo dentro da igreja?

Sim, acredito que houve. As pessoas ainda tem dificuldade de aceitar a raça negra. As pessoas dizem que não, mas eu senti isso da parte de alguns, percebi uma certa rejeição em função da minha cor. Se doeu? Claro que doeu, sou humano, mas isso não pesou na minha missão, que não foi ferida e nem machucada com isso, pois continuo dando o meu melhor, tenho me esforçado para que as coisas aconteçam como a igreja deseja. Mas, como eu disse para algumas pessoas e até mesmo na missa, se eles não me querem em Adamantina, eu também não pedi para vir para cá, eu vim em obediência ao bispo e a igreja, mas para mim isso não vai pesar, pois já tenho trabalhado muito bem o assunto, pois sofri esse tipo de pressão quando estava na São Miguel em Marília. Lembro que estava passando para ir para à missa e algumas pessoas diziam dentro da igreja “agora era só o que faltava, um padre ‘preto’ na paróquia”.

Mas ainda estou passando por processo de aceitação em Adamantina, apesar de já me sentir mais livre aqui.

- Uma quantidade expressiva de pessoas apoia o senhor em redes sociais. Como vê isso?

Vejo como uma coisa boa, pois ao mesmo tempo em que algumas pessoas que não gostam de você, graças a Deus tem outros que gostam. Mas a vida é assim.

Algumas pessoas me falaram para chamar a atenção dos fiéis na missa, mas eu disse que não chamaria pois a maioria não tem ligação com este ato. Eu procuro dar todo o amor para quem não gosta de mim e mostrar que não sou aquilo que eles estão pensando e tratar bem aqueles que estão ao lado, porque ficar perdendo tempo com cara feia e tratando mal as pessoas, não nos leva a nada.

- Há informações que pessoas levam dízimos e alugam vans para ir a igreja em Parapuã. O que acha dessa atitude? Em um tempo em que o próprio papa pede mais humildade, atitudes como essa não mostra a briga pelo poder dentro da igreja?

Acho que não é uma questão de briga pelo poder. Todos nos padres temos que fazer algumas experiências na vida. O papa até disse que uma das coisas que Deus está pedindo para nós é simplicidade, mas o que eu percebo é que algumas pessoas daqui de Adamantina tem um certo afeto profundo com o padre, que é uma coisa normal, assim como as pessoas de Pompéia tem afeto por mim, mas temos que entender que isso são fases e que em breve elas vão se adaptar. Entretanto, adamantinenses ainda não entenderam é que a mudança do padre daqui para uma outra comunidade foi para que ele vivesse uma outra experiência, pudesse amadurecer, mudanças que eram necessárias e, infelizmente, algumas pessoas estão prejudicando esse processo de vida e de santificação do padre. Além disso, estão prejudicando o contato dele com a comunidade de onde ele está. Isso parece uma coisa bonita, mas ao mesmo tempo a presença do povo daqui em Parapuã acaba afastando ou tirando as pessoas de lá de mais perto do padre.

O meu conselho é que cada um saiba de fato o seu lugar. Sabemos que existe afeto e amor, mas é necessário saber que o verdadeiro amor sabe onde é seu lugar e o seu tempo. Quando se ama verdadeiramente uma pessoa, uma das coisas principais é saber respeitar seu tempo e espaço, então, que todos saibam respeitar a comunidade de Parapuã, pois eles merecem viver o momento deles com o padre, e também respeitar o processo de mudanças da igreja.

A mudança não foi questão de castigo, de maldade como foi falado. Todos devem verdadeiramente viver esse afeto com o padre, mas tendo consciência que precisam respeitar, assim como o pessoal de Pompéia não está vindo aqui influenciar nem dar palpite, eles também deveriam assim pensar.

- Qual sua mensagem aos fiéis de Adamantina?

A comunidade de Adamantina é fervorosa, mas precisa aprender a aceitar as pessoas e acolher os novatos, pois quando alguém chega sempre tem algo de bom para oferecer, assim como levar aprender com a nova realidade.

Espero que a convivência com evangelho, a fé, contato com a palavra e vivência profunda com a espiritualidade possa ajudar a mudar a mentalidade de alguns católicos de Adamantina, principalmente de mais idade. É preciso consciência de que ‘vocês’ têm muito para oferecer. Precisamos unir os idosos e os jovens, unificando quem precisa aprender com quem tem muito o que ensinar. Não quero fazer nenhuma evangelização sem o apoio das pessoas de mais idade, ‘vocês’ têm a experiência e os jovens a necessidade de aprender. Conto com o apoio de todos.

 

Fonte: Tamyris Araujo - Da redação

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